segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

A escrita em tempos de novas tecnologias da comunicação

Observações na educação:
1. Nos tempos de hoje, dados comprovam pessoas analfabetas?
2. Dados e notícias mostram crianças concluirem o Ensino sem o domínio da leitura e da escrita?
3. O que está acontecendo entre nós educadores e com o Sistema de Ensino?
4. Onde está o nó desta questão?
Enfim, são várias as possibilidades de respostas, cada um se defende e se articula como pode e o problema se agrava e se exclui pessoas....

Verifica-se na história da escrita que ela segue o rumo definido, basicamente, pela economia. E desde a invenção do alfabeto, da imprensa gráfica por Gutemberg, até os dias hoje, a escrita exerce grande influência sobre o hábito de registro na cultura atual. Esta tecnologia propiciou maior circulação entre os leitores, possibilitou que os fatos ocorridos se relacionem com história e cultura de povo em todo o tempo, tanto no presente, passado e futuro.

Visto o filme “Narradores de Javé”, observa-se a carência na prática da escrita e da leitura dos moradores de um vilarejo chamado Javé. Os cidadãos, ditos morados, preocupados com a possibilidade de ser submerso o pequeno lugar de Javé pelas águas de uma enorme usina hidro-elétrica, os moradores se organizaram para tentar salvá-la. A salvação seria construir, já que não tinham um patrimônio histórico seria necessário realizar um registro escrito das narrativas orais de cada morador. A maior dificuldade que tiveram foi encontrar alguém que pudesse escrever essas histórias. Pois, naquele lugar o progresso estava por chegar e poucas eram as pessoas que tinham conhecimento na leitura e escrita. O que melhor dominava a cultura da escrita era o Srº Antonio Biá, o seu conhecimento pela escrita foi explorado à exaustão, e ele também aproveitava da situação e explorava os amigos que ali moravam. Percebe-se aqui o poder da cultura, a pessoa fica em evidência se for bem informada e dominar o conhecimentos.

Entre os vários assuntos que oportunizam abordar no filme, apresenta-se em evidência a importância da escrita, que a escrita é a linguagem do poder, ela é a linguagem da lei. Haja vista que, com a inundação do vilarejo de Javé apenas os moradores que tivessem a escrita de posse de suas terras seriam indenizados. Contudo, nenhum morador possuia este documento e o limite de terra era feito por meios da divisa cantada, ou seja, o morador recita o limite de seu território e esse limite era respeitado, até então não havia necessidade de uma escritura ou um registro formal para a posse da terra. E é apresentado no final do filme que os moradores finalizaram com a perda de seus bens imóveis, pois o limite por meios da divisa cantada não teve valor.

Uma das falas de Antonio Biá a julgar importante é: “uma coisa é fato acontecido, outra coisa é o fato escrito, o acontecido tem que ser melhorado no escrito (...)”. O que Biá coloca é que na oralidade você se expressa para o outro e há a interlocução imediata, resultando um entendimento no ato da fala, tudo é possível para fica esclarecido até mesmo os gestos e expressões. Já na escrita e necessário o domínio do código linguístico, de respeitar regras e algumas vezes lançar mãos de recursos estilísticos para que o texto fique mais inteligível para que o outro leia e compreenda.

Na pesquisa de campo, ao entrevistar o Srº José de Brito, morador num bairro um pouco distante da cidade de Embu, esse senhor manifestou desde o início a vergonha de estar analfabeto. Comenta que quando pequeno quase não teve um lar, palavras do Srº José de Brito “Minha mãe deu eu e meus irmãos como se fosse uma ninhada de cachorro, um para cada família.” Ele por sua vez acabou ficando com diversas famílias impossibilitando-o de freqüentar a escola. De tanta fome e frio que passou, quando encontrou uma família que o recebeu, deu trabalho na lavoura, tinha comida e roupa jamais pensou em estudar.

Quando estudou, sua permanência na escola foi por três meses apenas e nunca mais sentou em um banco escolar. Ele não sabe ler e escrever, mas se considera uma pessoa inteligente, pois, hoje é aposentado de empresa privada na função de motorista e recebe seus benefícios no banco utilizando-se de cartão magnético - tecnologia.

Ao ser questionado como conseguiu preencher a ficha de inscrição para a vaga pretendida, responde: “Para preencher a ficha eu copiava tudo dos outros só o nome que colocava o meu, era engraçado que até o endereço e CEP era dos outros, quando retornava na empresa para saber do resultado eu era chamado e o colega não, isso e coisa de Deus, é uma benção”. Durante essa conversa observa-se que o Srº José de Brito era um senhor curioso e devoto, na lavoura ele dirigia e arrumava as máquinas e caminhões onde trabalhava e com isto, fazia a diferença na hora de disputar a vaga, ele tinha a prática que os demais não tinham – estrategista!!!

Atualmente, a comunicação do Srº José de Brito com seus familiares e parentes se dá por telefone, disse que antigamente não era possível. Nos tempos de hoje se tem telefone fixo, móvel, e-mail, fax, enfim, a comunicação hoje é fácil basta a pessoa querer.

A escrita, faz muita falta para o Srº José de Brito, recebeu de herança algumas terras e por não dominar a leitura e escrita, não saber da tramitação legal da documentação, necessita confiar nas idéias e ações de colegas, e por várias vezes pessoas maus intencionadas tiraram proveitos desta situação.

Por fim, após colocar o filme e a pesquisa de campo, lançar atenção aos questionamentos no início deste texto e verificar que já se falam em letramento digital e dados comprovam crianças, jovens e adultos após concluirem o Ensino ainda analfabetos. É necessário possibilitar outras estratégias de aprendizagem na educação e utilizar de recursos tecnológicos para inserir esses cidadãos ao meio da comunicação eletrônica. "Lévy (1993) inclui as tecnologias de escrita entre as tecnologias intectuais, responsáveis por gerar estilos de pensamento diferentes... esse autor insiste, porém, que as tecnologias intelectuais não determinam, mas condicionam processos cognitivos e discursivos".

Ao falar em tecnologia digital significa não apenas saber como utilizar as tecnologias digitais, mas entrar em contato com ela de maneira significativa, entendendo seus usos e possibilidades em nossa vida social.

Enfim, o letramento digital seria uma das portas para colaborar nos índices de alfabetismo. Pensar no letramento digital estar por acrescentar oportunidades para que todos os cidadãos e comunidades possam utilizar de instrumentos de leitura e escrita que estejam relacionadas às práticas educativas e com as práticas e contextos sociais.

“Quanto mais o homem for levado a refletir sobre sua situação, seu enraizamento espaço-temporal, mais emergirá dele a consciência do compromisso com a realidade do qual, porque é sujeito, não deve ser simples espectador, mas deve intervir cada vez mais”. (Freire P.-Educação e Mudança. 1979 – p.61).

Nesse sentido, entrelaçar os códigos gráficos ao texto na tela - o hipertexto, interação on-line (os chates, o e-mail, os fóruns) entre outros recursos tecnológicos é oportunizar o indivíduo colocar em prática os conhecimentos adquiridos para assim transformar sua realidade e criar um mundo melhor para si e para o outro.


Referências Bibliográficas:
SOARES, M. Letramento na Cibercultura: Noas práticas de leitura e escrita.
FREIRE, P. Educação e Mudança: Rio de janeiro: Paz e Terra, 1979 – 28 ed.
Filme: Narradores de Javé (a memória entre a tradição oral e escrita).
Blog: http://meusqueridospimpolhos.zip.net/.